Meu coração,
às vezes,
parece querer chamar-me a atenção
- e bate de um jeito,
aparentemente,
normal,
mas que consegue fazer,
por um minuto
ou dois,
que eu pense e sinta
que há algo a mais,
que há algo a mais.
26 de outubro de 2008
Ao mesmo tempo
Pode
parecer
incrível
que
eu
ainda
pense
nela.
Porém,
incrível
mesmo
é
saber
que
isso
me
acontece
ao mesmo tempo
em
que,
para
ela,
eu mesmo nem aconteça.
parecer
incrível
que
eu
ainda
pense
nela.
Porém,
incrível
mesmo
é
saber
que
isso
me
acontece
ao mesmo tempo
em
que,
para
ela,
eu mesmo nem aconteça.
6 de outubro de 2008
Choveu
Choveu
na plúmbea tarde em que você disse
não me procure
- e o tempo expressou
o que eu não podia expressar.
na plúmbea tarde em que você disse
não me procure
- e o tempo expressou
o que eu não podia expressar.
Olhar
Existe um olhar
(acreditem: existe)
que,
assim como a energia,
realiza trabalho
e põe tudo em movimento.
Contudo,
esse mesmo olhar,
ainda que o mesmo,
ainda que energia,
também absorve,
consome
e exaure.
(acreditem: existe)
que,
assim como a energia,
realiza trabalho
e põe tudo em movimento.
Contudo,
esse mesmo olhar,
ainda que o mesmo,
ainda que energia,
também absorve,
consome
e exaure.
16 de setembro de 2008
Se
Se,
e apenas se,
alguém souber
quebrar o encanto
ou desencanto
que transformou
gente em estátua
e amor em gesso,
faça o favor,
urgentemente,
de arremessar
alguma pedra.
Agradecemos.
e apenas se,
alguém souber
quebrar o encanto
ou desencanto
que transformou
gente em estátua
e amor em gesso,
faça o favor,
urgentemente,
de arremessar
alguma pedra.
Agradecemos.
15 de setembro de 2008
Esperança
Se eu soubesse ontem
o que hoje eu sei
não deixaria
(como acabei deixando)
que a indiferença
me agrilhoasse
com tanta força
como o fez.
Mas nunca é tarde
(é o que dizem)
e há perdão
para os que vêem
enquanto há tempo
para se ver
(há esperança,
- ah! Esperança! -
palavra mãe
que alimenta,
envolve,
esquenta
e aconchega,
como faz Deus,
fazem amor e confiança).
o que hoje eu sei
não deixaria
(como acabei deixando)
que a indiferença
me agrilhoasse
com tanta força
como o fez.
Mas nunca é tarde
(é o que dizem)
e há perdão
para os que vêem
enquanto há tempo
para se ver
(há esperança,
- ah! Esperança! -
palavra mãe
que alimenta,
envolve,
esquenta
e aconchega,
como faz Deus,
fazem amor e confiança).
8 de setembro de 2008
Aquele
Há
entre mim
e o espelho
algum espaço em que as coisas não se definem
- e isso impede a solução
tanto deste
quanto daquele.
E toda vez
que nos olhamos
nos estranhamos
profundamente
nos estranhamos
individualmente
- e isso impede a solução
tanto deste
quanto daquele.
entre mim
e o espelho
algum espaço em que as coisas não se definem
- e isso impede a solução
tanto deste
quanto daquele.
E toda vez
que nos olhamos
nos estranhamos
profundamente
nos estranhamos
individualmente
- e isso impede a solução
tanto deste
quanto daquele.
3 de setembro de 2008
A mão
A mão
com que você me feriu
não tinha
não tem
nem nunca terá
o peso
insólito
da mão
com que lhe estendi
o perdão.
com que você me feriu
não tinha
não tem
nem nunca terá
o peso
insólito
da mão
com que lhe estendi
o perdão.
2 de setembro de 2008
Ferida
Amo-te tanto, mas por não querer-me
é que desprezo, em mim, a minha vida!
Se não me queres, quero então perder-me
- e que o caixão proteja esta ferida.
é que desprezo, em mim, a minha vida!
Se não me queres, quero então perder-me
- e que o caixão proteja esta ferida.
Paz
Oh meu Senhor, minha esperança
de viver bem, sem sofrimento!
Oh meu Senhor, vê se te cansa
e ponha um fim ao meu lamento.
Meu Deus, meu Deus, peço com força:
encurte muito a minha vida!
Um acidente - a forca, a forca!
Mas, por favor, uma saída!
Tanto sofrer! Tanto sofrer!
Meu coração não pode mais!
Então, Senhor, quero morrer!
Quero morrer - deixa-me em paz.
Se sempre vivo amargurado,
se sempre vivo em solidão
(eu sempre fui tão desgraçado
- melhor morrer, oh coração!)
de viver bem, sem sofrimento!
Oh meu Senhor, vê se te cansa
e ponha um fim ao meu lamento.
Meu Deus, meu Deus, peço com força:
encurte muito a minha vida!
Um acidente - a forca, a forca!
Mas, por favor, uma saída!
Tanto sofrer! Tanto sofrer!
Meu coração não pode mais!
Então, Senhor, quero morrer!
Quero morrer - deixa-me em paz.
Se sempre vivo amargurado,
se sempre vivo em solidão
(eu sempre fui tão desgraçado
- melhor morrer, oh coração!)
11 de agosto de 2008
Ilusão
Há dez minutos
um professor falou:
"A molécula de água
apresenta uma formação polar.
Se apresentasse uma formação apolar,
o nosso mundo seria completamente diferente".
Ouvi.
Refleti.
Concluí:
ilusão.
O meu mundo seria diferente,
apenas,
se você voltasse para mim.
um professor falou:
"A molécula de água
apresenta uma formação polar.
Se apresentasse uma formação apolar,
o nosso mundo seria completamente diferente".
Ouvi.
Refleti.
Concluí:
ilusão.
O meu mundo seria diferente,
apenas,
se você voltasse para mim.
10 de agosto de 2008
Santa Maria
Maria o nome e pelo qual fora escolhida
pelo Senhor, Nosso Senhor, o Pai da Vida,
a ser a mãe de quem nos ama sem ser quisto,
a Nossa Mãe, Santa Maria, a mãe de Cristo.
Maria o nome e o nome Santa por ter tido
o Santo Filho posto a graça de Jesus,
vendo mais tarde o Santo Cristo incompreendido
pregado aos pés, sangrado os pés - Sagrada Cruz.
Santa Maria, Virgem Mãe, Nossa Senhora,
santificada por Deus Pai, Nosso Senhor,
faze-te voz no vento em vão no Mundo à fora
e sopra a paz, e sopra a crença, e sopra o amor.
Madre Maria vê teu filho, nu, pregado,
crucificado, preso aos pregos pelas partes,
faze-te dom de inspiração sobre o pecado
e prega aos homens o perdão pelas más artes.
Maria o nome e o nome só por si de fé
e tanta fé que em nome só não caberia,
e tanto amor e tanta dor nessa mulher
- Maria Só Deus consagrou Santa Maria.
pelo Senhor, Nosso Senhor, o Pai da Vida,
a ser a mãe de quem nos ama sem ser quisto,
a Nossa Mãe, Santa Maria, a mãe de Cristo.
Maria o nome e o nome Santa por ter tido
o Santo Filho posto a graça de Jesus,
vendo mais tarde o Santo Cristo incompreendido
pregado aos pés, sangrado os pés - Sagrada Cruz.
Santa Maria, Virgem Mãe, Nossa Senhora,
santificada por Deus Pai, Nosso Senhor,
faze-te voz no vento em vão no Mundo à fora
e sopra a paz, e sopra a crença, e sopra o amor.
Madre Maria vê teu filho, nu, pregado,
crucificado, preso aos pregos pelas partes,
faze-te dom de inspiração sobre o pecado
e prega aos homens o perdão pelas más artes.
Maria o nome e o nome só por si de fé
e tanta fé que em nome só não caberia,
e tanto amor e tanta dor nessa mulher
- Maria Só Deus consagrou Santa Maria.
31 de julho de 2008
Nada
Coisas de crianças, gracinhas de bebês, o pôr ou o nascer do sol, a chuva na janela, as ventanias, as tempestades, o vôo do beija-flor, o canto dos pássaros, as formas das nuvens, o arco-íris, as florestas, os oceanos, as ondas, as conchas, as praias, as serras, as montanhas, as estradas, as poesias, as literaturas, os sons, as melodias, os doces, as comidas, os filmes, as partituras, as paisagens, os horizontes, os céus, as estrelas, as luas, os eclipses, os desenhos, as pinturas, os quadros, as sinfonias, as óperas, os teatros, as contas da matemática, os avanços da ciência, as pedras preciosas, os frutos, os filhos, as rezas e as religiões – nada se compara ao olhar, malicioso, de uma mulher bonita. Nada.
29 de julho de 2008
O banheiro era a sua única opção. O quarto não era apenas seu, alguém poderia abrir a porta e o suicídio seria a única saída – sabia, afinal, que o que fazia não era normal. Aliás, há algum tempo desconfiava que nada mais fosse normal. Porém, mesmo desconfiando que a normalidade também houvesse sido defenestrada do mundo, sabia que a sua mania era esquisitíssima. O banheiro – pensava – era a única opção. Trancava-se para tomar banho e, meia hora depois, saía feliz e sequíssimo. Secava-se bem, pensavam os familiares. Saía do banheiro, dirigia-se ao quarto, deitava-se na cama e ficava pensando que deveria parar com aquilo. Mas não dava conta. Era a melhor parte dos seus dias e há tempos praticava. Não havia prazer maior, refletia. Pensava, também, sobre a força e a coragem necessárias para largar aquela mania. Contudo, geralmente concluía que ruim mesmo era ter apenas o banheiro para tal prazer. Se morasse sozinho ou se pudesse trancar-se no quarto, desejava enquanto calculava o quanto poderia ser feliz. Mas não morava sozinho, não era o único a usar o quarto, dividia a casa com os familiares e não podia levantar qualquer suspeita. O banheiro, realmente, era a sua única opção. Conformado, usava-o todas as vezes que era possível – satisfeito, crente de que não era observado e seguro de que seu comportamento era tão secreto quanto anormal. Um dia, porém, essa segurança se desfez. Um dos seus familiares morrera usando o banheiro e, desde então, passou a pensar que a alma do infeliz ficara por lá, presa a casa pelas circunstâncias da morte. Desesperou-se. E o banheiro? Como o usaria? A alma do familiar poderia estar lá dentro, sentada, deitada, perambulando pelo ambiente ou em pé atrás da porta, parada, agachada ou de qualquer outra maneira perdida e penada. Sua privacidade estava acabada. No velório tal preocupação já lhe roubava a atenção e, exatamente por isso, nem se deu conta de que ele era o único vivo a não chorar pelo morto. Acreditava, cada vez mais, que a alma do sujeito ficara no banheiro, afinal, já o achava inconveniente e tinha certeza de que ele não perderia a oportunidade de bisbilhotar aos outros. Lembrou-se de uma vez em que o falecido perguntara-lhe por que se demorava tanto em seus banhos – e essa lembrança, por si só, fez com que se desesperasse mais ainda. Em um desses momentos de desespero, aproximou-se do caixão e, olhando fixamente para o defunto, disse-lhe em pensamento: “pensas que me enganas, mas sei o que planejas. Há tempos demonstras curiosidade pela minha vida e talvez tenhas desprezado o fato de que curiosidade mata, como dizem por aí. Porém, sei que ainda andas pela nossa casa, observando-me. Teus olhos não me enganam, desgraçado”. Findo o velório e enterrado o morto, voltou para casa e foi direto ao banheiro, certo de que com um pouco de esforço poderia perceber a alma do infeliz e expulsá-la de lá. Contudo, após inúmeras tentativas, deu-se por derrotado em seu belicoso projeto de reintegração de posse do banheiro da sua vida. A alma do finado parecia não querer discussão, preferindo permanecer em sua nova – e privilegiada situação – de expectadora silenciosa e inexpugnável das coisas. Não tinha saída. Não possuía meios para morar sozinho, nenhum outro cômodo da casa oferecia segurança aos seus propósitos e o banheiro, mesmo com a porta trancada e todas as suas paredes, não mais lhe servia como uma fortaleza de intimidade e privacidade. Assim, três dias após o velório, entrou em uma profunda e irreversível crise. Sua existência reclamou a falta do banheiro, tanto para o que era normal, quanto para o que somente a mais absoluta privacidade poderia permitir-lhe. A inutilização absoluta do seu espaço predileto fez com que seus nervos não agüentassem mais. Acessos, desmaios, chiliques e faniquitos tomaram conta do seu comportamento, tornando-o, de uma hora para outra, uma pessoa irreconhecível, assustadora e perigosa – completamente desequilibrada, como os próprios familiares começaram a dizer. Tal desequilíbrio atingiu o seu ponto máximo quando, no quarto dia após o velório, suas trêmulas mãos atearam fogo ao banheiro, incendiando-o com combustíveis que acreditava cremar espíritos. Foi a gota d’água para a sua família. Com parte da casa ainda em chamas, seus pais decidiram interná-lo em um hospital psiquiátrico e submetê-lo a tratamentos que prometessem o seu reequilíbrio. Antes mesmo do fim do incêndio, quatro homens o arrastaram até o hospital, obrigando-o a usar uma camisa de força e até mesmo uma fucinheira improvisada. A casa pegando fogo, os moradores desesperados, a vizinhança amontoada e uma pessoa sendo arrastada com uma fucinheira presa ao rosto proporcionaram aos expectadores uma cena interessante – e deprimente. Mais tarde, o momento em que o fogo foi apagado coincidiu com o instante em que, já no hospital psiquiátrico, a focinheira que o amordaçava foi retirada. Nenhuma palavra saiu da sua boca, mas, em seu olhar perdido, todas as tristezas do mundo apareceram. Contudo, tristeza maior estava por vir. Diagnosticado, na manhã seguinte foi transferido para o hospício da cidade, um velho manicômio que ficava em um prédio antigo e semidestruído, habitado por uma centena de pacientes que, além dos quartos, dividiam um único e apertado banheiro coletivo – razão de variados tratamentos improdutivos, incontáveis olhares desesperados e inúmeros instintos assassinos. Incendiários.
20 de julho de 2008
Criatura
Eu conheço tua cara,
Eu conheço tuas mãos,
Eu conheço tua fala,
teus amigos, teus irmãos.
Eu conheço tua casa,
Eu conheço teus andados,
Eu conheço teu destino,
teu presente, teus passados.
Eu conheço tuas fugas,
Eu conheço tuas falhas,
Eu conheço tuas rugas
e também tuas batalhas.
Eu conheço teus amigos,
Eu conheço teus enganos,
Eu conheço teus afetos
e também sei de teus planos.
Eu conheço tua letra,
Eu conheço tua sorte,
Eu conheço tua vida
(sei também da tua morte).
Eu conheço o que te inflamas,
Eu conheço o que contestas,
Eu conheço o que tu amas
e também o que detestas.
Eu conheço teus desejos,
Eu conheço teus amores,
Eu conheço tuas pedras
e também as tuas flores.
Eu conheço teus olhares,
tuas lágrimas...conheço!
E também ao respirares
teu suspiro Eu reconheço.
Eu conheço-te completo,
Eu conheço-te desfeito,
Eu conheço-te pretérito
e também mais-que-perfeito.
Ah figura inacabada,
transparente criatura:
Eu conheço teus defeitos
e também tua formosura.
Eu conheço tuas mãos,
Eu conheço tua fala,
teus amigos, teus irmãos.
Eu conheço tua casa,
Eu conheço teus andados,
Eu conheço teu destino,
teu presente, teus passados.
Eu conheço tuas fugas,
Eu conheço tuas falhas,
Eu conheço tuas rugas
e também tuas batalhas.
Eu conheço teus amigos,
Eu conheço teus enganos,
Eu conheço teus afetos
e também sei de teus planos.
Eu conheço tua letra,
Eu conheço tua sorte,
Eu conheço tua vida
(sei também da tua morte).
Eu conheço o que te inflamas,
Eu conheço o que contestas,
Eu conheço o que tu amas
e também o que detestas.
Eu conheço teus desejos,
Eu conheço teus amores,
Eu conheço tuas pedras
e também as tuas flores.
Eu conheço teus olhares,
tuas lágrimas...conheço!
E também ao respirares
teu suspiro Eu reconheço.
Eu conheço-te completo,
Eu conheço-te desfeito,
Eu conheço-te pretérito
e também mais-que-perfeito.
Ah figura inacabada,
transparente criatura:
Eu conheço teus defeitos
e também tua formosura.
18 de julho de 2008
17 de julho de 2008
11 de julho de 2008
Nós
Eu Nós,
Tu Nós,
Nós pós,
Nós sós.
Dois Nós
na voz,
na voz
dois nós.
Só Nós
na foz,
a sós,
mas sós.
Eu Nós,
Tu Nós,
Tu Nós,
Eu Nós.
Tu Nós,
Nós pós,
Nós sós.
Dois Nós
na voz,
na voz
dois nós.
Só Nós
na foz,
a sós,
mas sós.
Eu Nós,
Tu Nós,
Tu Nós,
Eu Nós.
2 de julho de 2008
O sol
Para Carolina
O sol,
no céu,
não tem,
eu sei,
qualquer
noção,
nem faz
idéia,
de que
os ares
que ali
estão
entre ele
e nós,
ali
estão,
entre ele
e nós,
porque
a luz
que sai
de nós
faria
ao próprio
um mal
imenso,
um grande
estrago,
a sua
estima.
O sol,
no céu,
não tem,
eu sei,
qualquer
noção,
nem faz
idéia,
de que
os ares
que ali
estão
entre ele
e nós,
ali
estão,
entre ele
e nós,
porque
a luz
que sai
de nós
faria
ao próprio
um mal
imenso,
um grande
estrago,
a sua
estima.
21 de junho de 2008
Chão
Eu não sei o que acontece
quando as vista se escurece
e me faia o coração;
bate um medo desgraçado
de viver amargurado
por largar o meu sertão.
Toda noite numa prece
peço a Deus que se interesse
por nóis fio desse chão
- que crescemo co’as promessa
de político com pressa
de ganhar as eleição.
Peço a Deus do céu que ajude
dando a nóis muita saúde
pra seguir na procissão
- que é de fé e de esperança,
co’as muié e co’as criança
que vão dando a direção.
Que tortura a nossa vida,
não tem cama nem comida,
nem feliz recordação.
As lembrança são da fome
que matara nossos home
nas batalha pelo pão.
Nóis não sabe se tem sorte
por tá vivo ou se é co’a morte
que nóis vai tê solução;
mais nóis sabe que da terra
nóis num larga nem com guerra
nem com tiro de canhão.
Pode vir o mundo abaixo,
coronel com seus capacho,
que nóis vai brigar de mão:
nóis não ‘tamo de saída,
severina é nossa vida,
nóis não larga desse chão.
quando as vista se escurece
e me faia o coração;
bate um medo desgraçado
de viver amargurado
por largar o meu sertão.
Toda noite numa prece
peço a Deus que se interesse
por nóis fio desse chão
- que crescemo co’as promessa
de político com pressa
de ganhar as eleição.
Peço a Deus do céu que ajude
dando a nóis muita saúde
pra seguir na procissão
- que é de fé e de esperança,
co’as muié e co’as criança
que vão dando a direção.
Que tortura a nossa vida,
não tem cama nem comida,
nem feliz recordação.
As lembrança são da fome
que matara nossos home
nas batalha pelo pão.
Nóis não sabe se tem sorte
por tá vivo ou se é co’a morte
que nóis vai tê solução;
mais nóis sabe que da terra
nóis num larga nem com guerra
nem com tiro de canhão.
Pode vir o mundo abaixo,
coronel com seus capacho,
que nóis vai brigar de mão:
nóis não ‘tamo de saída,
severina é nossa vida,
nóis não larga desse chão.
19 de junho de 2008
Senhor
Tira, Senhor, a minha vida
Tira, Senhor, o que quiseres
Tira, mas deixa-me as feridas
- marcas deixadas por mulheres
Tira, Senhor, a minha luz
Cobra, Senhor, os teus favores
Grave, porém, na minha cruz
Morto, ferido por amores
Ouça, Senhor, os meus apelos
- dores em forma de palavras
Pesos que fiz por merecê-los,
crendo, porém, que me salvava
Tira, Senhor, a minha sorte,
sorte de dores e fracassos!
Manda, Senhor, enfim, a morte
- quero dormir em seus abraços
Tira, Senhor, o que quiseres
Tira, mas deixa-me as feridas
- marcas deixadas por mulheres
Tira, Senhor, a minha luz
Cobra, Senhor, os teus favores
Grave, porém, na minha cruz
Morto, ferido por amores
Ouça, Senhor, os meus apelos
- dores em forma de palavras
Pesos que fiz por merecê-los,
crendo, porém, que me salvava
Tira, Senhor, a minha sorte,
sorte de dores e fracassos!
Manda, Senhor, enfim, a morte
- quero dormir em seus abraços
12 de junho de 2008
Agradecido
Quando o semáforo fechou, parei o carro atrás de uma van. Ela era enorme e impedia a visão de qualquer outra coisa além do cruzamento. Era um sinaleiro lento, relativamente demorado e instalado em uma importante avenida da cidade. Quase todos os dias eu parava ali, consumindo alguns minutos de um tempo que eu não achava ruim perder. Era o tempo de trocar um cd, enviar uma mensagem ou ligar para alguém – tempo suficiente para realizar pequenas coisas que não ganhavam importância ao longo das outras horas do dia. Naquele sinaleiro, essas pequenas coisas mudavam de status e passavam a ser prioridade – pelo menos enquanto o sinal vermelho demorava-se em tornar-se verde. Naquele dia, dia em que uma imensa van obstruía a minha visão, um veículo funerário parou ao meu lado impedido de seguir em frente pela força ameaçadora de um radar interligado ao semáforo. Carregava um caixão, coroas de flores e era seguido por uma fila de outros carros com os seus pisca-piscas ligados. Não era a primeira vez que eu via um caixão, contudo, era a primeira vez que eu compartilhava com um morto um tempo dedicado à espera de um sinal para seguir em frente na vida. Naquele momento, enquanto um sinal vermelho impedia a passagem de vivos e mortos, os contrastes entre a nudez do dia-a-dia e os mistérios da morte tomaram a minha mente. Com um olho no semáforo e o outro no caixão, pensei sobre a minha própria vida, a provável vida daquele que estava no caixão e os caminhos, ou descaminhos, que o levaram a parar naquele cruzamento. Entretanto, ainda sob a ordem colorida de permanecer parado e em meio a pensamentos sobre o a vida e os seus trânsitos, logo a minha atenção voltou-se ao carro que estava parado atrás do veículo funerário. Era um carro pequeno, estava quase ao meu lado. Nele, ao lado do seu motorista, encontrava-se uma jovem entristecida que, moderadamente, deixava algumas lágrimas escorrerem pelo rosto. Não precisei mais do que brevíssimos instantes para notar que todos os ângulos do seu rosto eram perfeitos. Ela era linda. Seus olhos, claros e mareados, oscilavam entre alguns momentos fechados, consternados, e o olhar direcionado ao veículo funerário posicionado a sua frente. Nesses instantes, instantes em que seu olhar direcionava-se ao caixão, a sua dor era visível e, sua beleza, inquestionável. Confesso que, após avistá-la, nada mais ao meu redor chamou-me a atenção: a partir daquele momento, toda a minha sensibilidade voltou-se para a percepção e a compreensão daqueles extremos que, para mim, sintetizavam a experiência humana – a vida, a beleza, a dor e a morte. Tomado por pensamentos e sentimentos irresistíveis, continuei a observá-la até o momento em que o trânsito obrigou-me a colocar-me em movimento. Quando passei pelo semáforo, não mais senti que estava apenas dirigindo e prosseguindo com a minha vida – alguma coisa mudara em mim, e a um morto, e a uma bela, eu passara a ser eternamente agradecido.
4 de junho de 2008
That's the question
Desistir.
Existir.
Desistir.
Existir.
Desistir
de existir.
Desistir.
Esistir.
Desistir
de esistir.
Dexistir.
Esistir.
Dexistir
de esistir.
Desistir.
Esistir.
Desistir
d esistir
- eis a questão.
Existir.
Desistir.
Existir.
Desistir
de existir.
Desistir.
Esistir.
Desistir
de esistir.
Dexistir.
Esistir.
Dexistir
de esistir.
Desistir.
Esistir.
Desistir
d esistir
- eis a questão.
28 de maio de 2008
Procura
Nada, nada vale a pena:
a minh’alma tão pequena
não consegue sossegar
- vive em busca de um abrigo,
de uma ajuda, de um amigo,
de um motivo, de um lugar.
a minh’alma tão pequena
não consegue sossegar
- vive em busca de um abrigo,
de uma ajuda, de um amigo,
de um motivo, de um lugar.
Enquanto
Viver, amor, só vale a pena se for pouco,
mas o bastante e nunca mais que o necessário:
o tanto quanto, por exemplo, vive o louco
acreditando ser um revolucionário.
mas o bastante e nunca mais que o necessário:
o tanto quanto, por exemplo, vive o louco
acreditando ser um revolucionário.
22 de maio de 2008
Soneto de uma discussão
Oh Justo! Em só tormentos atiraste-me,
a fim de nem sei quê - pode explicar-me?
Abala-me saber que embora amaste-me,
açoita-me no entanto a mente e a carne.
Escuta-me, sê justo, apelo à morte,
a fim que não procuro-Te por mais!
Esqueço-me que nunca avistei sorte
- um túmulo, por fim, eu peço paz!
E assim, quando da morte eu me compor
- da Morte e apenas morte o corpo for -
Oh Justo! A vida deixe-me lembrar:
as horas - que são gotas de tristezas;
os dias - que se juntam, correntezas...
...Oh Vida ingloriosa de pesar!
a fim de nem sei quê - pode explicar-me?
Abala-me saber que embora amaste-me,
açoita-me no entanto a mente e a carne.
Escuta-me, sê justo, apelo à morte,
a fim que não procuro-Te por mais!
Esqueço-me que nunca avistei sorte
- um túmulo, por fim, eu peço paz!
E assim, quando da morte eu me compor
- da Morte e apenas morte o corpo for -
Oh Justo! A vida deixe-me lembrar:
as horas - que são gotas de tristezas;
os dias - que se juntam, correntezas...
...Oh Vida ingloriosa de pesar!
13 de maio de 2008
Eu não valho o investimento
Gostaria que soubesses,
apesar de não quereres,
que se a morte me viesse
reclamando seus haveres,
eu diria "Morte, veja,
não há muito o que levar.
Leve a um verme que rasteja,
tens, assim, mais a ganhar.
Sou apenas restos, pó,
sou apenas estilhaços
- por favor deixe-me só,
o que queres com pedaços?
Não percebes que sou pouco,
que não valho os teus esforços?
O que queres com um louco?
Buscas vidas? Sou remorsos.
Corre atrás de ventanias
e terás muito mais sorte:
ganharás mais os teus dias
se buscares algo forte.
Sou remorsos e fraquezas,
um eterno sofrimento
- Ouve, Morte, com franqueza:
eu não valho o investimento."
apesar de não quereres,
que se a morte me viesse
reclamando seus haveres,
eu diria "Morte, veja,
não há muito o que levar.
Leve a um verme que rasteja,
tens, assim, mais a ganhar.
Sou apenas restos, pó,
sou apenas estilhaços
- por favor deixe-me só,
o que queres com pedaços?
Não percebes que sou pouco,
que não valho os teus esforços?
O que queres com um louco?
Buscas vidas? Sou remorsos.
Corre atrás de ventanias
e terás muito mais sorte:
ganharás mais os teus dias
se buscares algo forte.
Sou remorsos e fraquezas,
um eterno sofrimento
- Ouve, Morte, com franqueza:
eu não valho o investimento."
11 de maio de 2008
Há tempos
Quando sua mulher engravidou pensou que, finalmente, viveria a experiência que justificaria sua existência. Já tinham se passado quase quarenta anos desde que viera ao mundo, porém, até aquele momento, sentia que nada era digno de nota ou consideração em sua vida. Agora, prestes a tornar-se pai, desconfiava de que as coisas ganhariam algum sentido. Sua insignificante existência ganhara a chance de terminar possuindo algum significado. Sabia que sua esposa o amava, e muito. No entanto, a paternidade trar-lhe-ia a presença inquestionável do amor incondicional de um filho ou de uma filha. Assim, a partir do momento em que soube que seria pai, seus pensamentos voltaram-se a uma só questão: seria menino ou menina essa única pessoa para a qual ele seria muito importante? Sentiu-se a pessoa mais privilegiada do mundo quando a vida deu-lhe a resposta. Há quase quarenta anos procurava entender o que era ser um homem e, agora, sem qualquer preparação, viu-se encarregado da maior responsabilidade que já haviam colocado sobre as suas não tão largas costas: cuidar de uma mulher – de uma criança, na verdade, mas que, caso ele obtivesse sucesso naquela estranha e novíssima tarefa, um dia viria a ser uma mulher. Contudo, a vida tinha lhe preparado um desafio ao qual não sabia se estava à altura. No mesmo momento em que ganhou uma filha, perdeu a mulher nas incompreensíveis complicações cirúrgicas que subtraem vidas inocentes em hospitais não tão inocentes assim. Em suas não tão espaçosas costas, a partir daquele momento, fora obrigado, também, a carregar o peso da solidão. Entretanto, nas madrugadas que se sucediam, tal peso era sempre arremessado para o alto pelo choro da filha reclamando a sua atenção. O silêncio da casa era invadido pelo gemido daquela pequenina que, quando deitada na cama ou em seus braços, parecia uma caixinha de surpresas. Todavia, a ausência de sua esposa era sempre presente. Sentia a sua falta e carregava uma tristeza sem tamanho por tê-la perdido. Doía não tê-la presente nas trocas das fraldas que juntos estocaram, na hora das mamadeiras, dos primeiros brinquedos, dos primeiros passos e das primeiras palavras daquela que era o produto em miniatura de um imenso amor. Sua esposa fazia-lhe falta e não havia, na vida, parentes ou amigos que amenizassem a sua ausência. Ela era – como ele acreditava – o caminho que o levaria a descobrir o porquê da sua própria vida. Mas o destino, artesão de surpresas, tirou-lhe um caminho e ofereceu-lhe outro – e, com o passar do tempo, suas cada vez mais cansadas costas viram fraldas virarem calças, chupetas virarem batons, brinquedos virarem amigos e as noites recheadas de gemidos virarem madrugadas mal dormidas à espera da garota. Dia após dia, sozinho, cuidou da criança e dos seus penteados, do seu guarda-roupa e dos seus namorados. Buscou-a na escola e levou-a em festas, às vezes seguro, outras preocupado, mas sempre disposto e com todos os zelos. Não reclamava nunca. Ano após ano, também sonhava quase todas as noites com a esposa e acreditava vê-la andando pela casa, conversando com a filha ou dormindo ao seu lado. Falava com ela tantas e tantas vezes que acabou por chamar a atenção dos amigos, dos vizinhos e de todos os que o viam falando com os ares e as paredes. Até a filha – que crescera acostumada com as estranhezas do pai – começou a achar que a loucura alcançara-o, acompanhando-o pelo mundo e corroendo-o por dentro. Sentado na varanda da casa, ou na cama do quarto, passou a ficar horas olhando a janela e os quadros da parede, encarando-os como se pudesse adentrá-los. Aos poucos, deixou de se relacionar com as pessoas e ampliou o tempo em que passava os dias conversando somente consigo mesmo, coisas desconectadas e incompreensíveis a todos que se aproximavam e o ouviam. Fechou-se em si mesmo e, com os olhos inexpressivos, assim caminhou para o fim da vida acompanhado apenas por aquela que desde sempre havia sido a sua mais constante e misteriosa companhia: a dúvida sobre o porquê da sua existência. Quando partiu, não deixou sinal de que havia resolvido a questão. Foi embora e, ao despedir-se da filha, chorou como não havia feito em todos aqueles dias marcados pela falta da esposa a cada fralda trocada ou madrugada mal dormida. No último momento, segurou a sua mão e a encarou como não o fazia há anos. De repente, cerrou os olhos e nunca mais voltou a abri-los, respirando por mais pouquíssimas vezes até que deixou de fazê-lo por completo – para muitos, para descansar em paz, mas, para a filha e todos que o conheciam bem, para apenas e tão somente voltar aos braços daquela que o esperava há tempos.
3 de maio de 2008
Esquerda
Nada lhe chamava tanto a atenção quanto a moça que trabalhava a sua esquerda. Aliás, a sua esquerda, somente duas coisas lhe chamavam a atenção: a moça, espetacular e maravilhosa como o cenário de um paraíso, e o seu coração, descompassado e desacertado como um relógio fora de hora. A moça, inconcebível, estava bem. Seu coração, no entanto, nem tanto. Andava estranho, desentoado. Contudo, não era ele, e sim a moça, mais à esquerda e admirável, que lhe chamava a atenção. Ela era perfeita. Tinha a beleza que nenhuma outra possuía e a sensualidade que ele sempre procurara nas mulheres que observara. Observara. Depois que a conheceu, não observou mais ninguém. Ela era, há anos, e a sua esquerda, o único mundo que existia. Um dia, e sem que esperasse, seu chefe o chamou em sua sala:
- Nossa empresa iniciou um processo de contenção de custos e, em função disso, não necessitaremos mais da prestação dos seus serviços. Agradecemos a sua compreensão e temos a certeza de que logo você estará recolocado no mercado. Quando Deus fecha uma porta, alguma janela se abre. Aproveite a oportunidade para realizar algum sonho: viaje, descanse, faça um curso, comece a pintar. Quem sabe do que somos capazes? Torceremos pelo seu sucesso e desejamos boa sorte. Adeus.
Seu coração, descompassado, quase se desesperou com a notícia. Quis bater com mais vontade, mas não mudou de entonação. Quem sabe fosse verdade aquela história da janela ou possuísse, entre os seus dons, a habilidade de pintar. Todavia, como era de se esperar, apenas uma coisa o incomodou: sair daquela empresa significava perder aquela moça, não mais tê-la a sua esquerda e não mais admirá-la. Isso era preocupante. Perderia, de uma vez, aquela moça e o seu mundo – a sua esquerda desencontrada. O que fazer?, se perguntava. Alguns meses após a sua demissão, e após viajar, descansar, estudar, pintar e procurar por janelas à esquerda e à direita, seu coração, adoentado, ordenou-lhe voltar à empresa que, em uma das suas salas, guardava a metade que lhe fazia falta. Obedeceu-o, ora feliz, ora angustiado, mas decidido a encontrá-la, aproximar-se e a revelar-se. Entretanto, verdadeira angústia sentiu quando adentrou à sala em que trabalhava com a moça e não a avistou. Meio triste, mas resoluto, perguntou aos ex-colegas o destino da mulher e obteve, de imediato, o inimaginável por resposta:
- Logo após a sua demissão, coisa de dois dias se não estamos enganados, ela nos procurou dizendo que queria o seu endereço. Não o tínhamos e não o encontramos nos arquivos da empresa – fato que, a princípio, estranhamos, mas que, mais tarde, compreendemos por completo. Também não sabíamos como encontrá-lo e não tínhamos a menor idéia de onde lhe procurar.
Nessa hora, seu coração e sua respiração aceleraram-se. Os ex-colegas, sem perceber, continuaram.
- Ouça o que ela mesma nos explicou: um dia antes da sua demissão, o chefe que lhe demitiu declarou-se a ela. Disse-se apaixonado e convencido a separar-se da esposa para com ela se casar. Contudo, segundo o que ela própria nos disse, o mesmo não obteve a resposta que desejava. Fora surpreendido por uma enérgica negatória que, dentre outras coisas, o fizera estremecer, perder a cabeça e derramar algumas lágrimas. Às pretensões descabidas com que ele a surpreendera, ela, corajosamente, opôs-se dizendo que, por você, nutria, secretamente, um sentimento que havia oscilado da admiração ao amor incondicional.
Naquela sala, e naquele momento, ninguém podia supor o que se passava em sua cabeça e em seu peito. Se soubessem, parariam. Não foi o caso.
- Segundo o que ela nos disse, tal colocação levou-o a perder a cabeça e a afirmar que iria lhe demitir, como realmente o fez, na esperança de lhe tirar de perto dela. Disse-nos, ainda, que, ajoelhada, implorou para que ele não lhe prejudicasse, que você não tinha culpa do que ela sentia e que nunca, em todos esses anos, você a havia percebido, mesmo ela estando tão próxima, tão perto, trabalhando, ali, a sua esquerda. Assim, após a sua demissão e sem que soubéssemos o que fazer, nossa colega começou a adoecer, a perder a vitalidade e a beleza que você conheceu. Um dia, como temíamos, ela não apareceu. Internou-se em um hospital para a realização de um tratamento que, infelizmente, não logrou êxito em restabelecer as forças que abandonaram o seu corpo pelas portas do coração despedaçado. Contudo, antes de falecer, ela nos enviou esta carta que, agora, lhe entregamos com a certeza de que esse era o seu destino.
Com a mão estendida, pegou a carta certo de que viveria a maior emoção da sua vida. Porém, desacertado como era, seu coração tinha outros planos. Impediu-o de sentir aquela emoção e, com carta e tudo, jogou-o à esquerda da sala que não passava de uma sala para os outros, mas que, para ele, fora o início e o fim de uma vida descompassada – descompassada, sem portas e sem janelas.
- Nossa empresa iniciou um processo de contenção de custos e, em função disso, não necessitaremos mais da prestação dos seus serviços. Agradecemos a sua compreensão e temos a certeza de que logo você estará recolocado no mercado. Quando Deus fecha uma porta, alguma janela se abre. Aproveite a oportunidade para realizar algum sonho: viaje, descanse, faça um curso, comece a pintar. Quem sabe do que somos capazes? Torceremos pelo seu sucesso e desejamos boa sorte. Adeus.
Seu coração, descompassado, quase se desesperou com a notícia. Quis bater com mais vontade, mas não mudou de entonação. Quem sabe fosse verdade aquela história da janela ou possuísse, entre os seus dons, a habilidade de pintar. Todavia, como era de se esperar, apenas uma coisa o incomodou: sair daquela empresa significava perder aquela moça, não mais tê-la a sua esquerda e não mais admirá-la. Isso era preocupante. Perderia, de uma vez, aquela moça e o seu mundo – a sua esquerda desencontrada. O que fazer?, se perguntava. Alguns meses após a sua demissão, e após viajar, descansar, estudar, pintar e procurar por janelas à esquerda e à direita, seu coração, adoentado, ordenou-lhe voltar à empresa que, em uma das suas salas, guardava a metade que lhe fazia falta. Obedeceu-o, ora feliz, ora angustiado, mas decidido a encontrá-la, aproximar-se e a revelar-se. Entretanto, verdadeira angústia sentiu quando adentrou à sala em que trabalhava com a moça e não a avistou. Meio triste, mas resoluto, perguntou aos ex-colegas o destino da mulher e obteve, de imediato, o inimaginável por resposta:
- Logo após a sua demissão, coisa de dois dias se não estamos enganados, ela nos procurou dizendo que queria o seu endereço. Não o tínhamos e não o encontramos nos arquivos da empresa – fato que, a princípio, estranhamos, mas que, mais tarde, compreendemos por completo. Também não sabíamos como encontrá-lo e não tínhamos a menor idéia de onde lhe procurar.
Nessa hora, seu coração e sua respiração aceleraram-se. Os ex-colegas, sem perceber, continuaram.
- Ouça o que ela mesma nos explicou: um dia antes da sua demissão, o chefe que lhe demitiu declarou-se a ela. Disse-se apaixonado e convencido a separar-se da esposa para com ela se casar. Contudo, segundo o que ela própria nos disse, o mesmo não obteve a resposta que desejava. Fora surpreendido por uma enérgica negatória que, dentre outras coisas, o fizera estremecer, perder a cabeça e derramar algumas lágrimas. Às pretensões descabidas com que ele a surpreendera, ela, corajosamente, opôs-se dizendo que, por você, nutria, secretamente, um sentimento que havia oscilado da admiração ao amor incondicional.
Naquela sala, e naquele momento, ninguém podia supor o que se passava em sua cabeça e em seu peito. Se soubessem, parariam. Não foi o caso.
- Segundo o que ela nos disse, tal colocação levou-o a perder a cabeça e a afirmar que iria lhe demitir, como realmente o fez, na esperança de lhe tirar de perto dela. Disse-nos, ainda, que, ajoelhada, implorou para que ele não lhe prejudicasse, que você não tinha culpa do que ela sentia e que nunca, em todos esses anos, você a havia percebido, mesmo ela estando tão próxima, tão perto, trabalhando, ali, a sua esquerda. Assim, após a sua demissão e sem que soubéssemos o que fazer, nossa colega começou a adoecer, a perder a vitalidade e a beleza que você conheceu. Um dia, como temíamos, ela não apareceu. Internou-se em um hospital para a realização de um tratamento que, infelizmente, não logrou êxito em restabelecer as forças que abandonaram o seu corpo pelas portas do coração despedaçado. Contudo, antes de falecer, ela nos enviou esta carta que, agora, lhe entregamos com a certeza de que esse era o seu destino.
Com a mão estendida, pegou a carta certo de que viveria a maior emoção da sua vida. Porém, desacertado como era, seu coração tinha outros planos. Impediu-o de sentir aquela emoção e, com carta e tudo, jogou-o à esquerda da sala que não passava de uma sala para os outros, mas que, para ele, fora o início e o fim de uma vida descompassada – descompassada, sem portas e sem janelas.
2 de maio de 2008
Por que não voltas?
Por que não voltas, oh produto do Destino?
A casa espera-te, teus doces prediletos...
As coisas tuas no teu quarto de menino
estão sofrendo em tua falta o desafeto.
Por que escolheste o que os teus olhos escurece?
O vento sopra-te os cabelos nesses ares?
A mãe sozinha que deixastes não te esquece
- amigos mais fizestes assim noutros lugares?
Antes pudera em teu lugar eu ter partido
e às vezes vejo-me em busca do caminho,
como se eu fosse em busca do não discutido
a Deus pedir que em teu lugar fosse eu sozinho.
Por que não voltas, oh dos brilhos os lampejos?
As coisas tuas não te querem desse lado...
...entregue a Deus o teu carinho nos teus beijos
e volte à casa de teu pai desconsolado.
A casa espera-te, teus doces prediletos...
As coisas tuas no teu quarto de menino
estão sofrendo em tua falta o desafeto.
Por que escolheste o que os teus olhos escurece?
O vento sopra-te os cabelos nesses ares?
A mãe sozinha que deixastes não te esquece
- amigos mais fizestes assim noutros lugares?
Antes pudera em teu lugar eu ter partido
e às vezes vejo-me em busca do caminho,
como se eu fosse em busca do não discutido
a Deus pedir que em teu lugar fosse eu sozinho.
Por que não voltas, oh dos brilhos os lampejos?
As coisas tuas não te querem desse lado...
...entregue a Deus o teu carinho nos teus beijos
e volte à casa de teu pai desconsolado.
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